Imagem capa - EXPOSIÇÃO - O legado de Lages no Haiti por Claudio Augusto Pinto Camargo
Histórias reais

EXPOSIÇÃO - O legado de Lages no Haiti

Olá,

Obrigado por visitar nossa Exposição que trás o Legado que o Exército Brasileiro construiu no Haiti, durante o 9º Contingente de Engenharia de Força de Paz. Conhecida como BRA ENG COY (Brazillian Engeneering Company), contou com 22 militares oriundos do então denominado 10 BEC (Batalhão de Engenharia de Construção) os quais ficaram 7 meses na missão, proporcionando apoio as ações da ONU (Organização da Nações Unidas), com um legado de construções de Estradas, Pontes, Escola, Orfanato, entre outras obras de infraestrutura essenciais para o HAITI.




As fotos foram capturadas por mim, Cb Augusto Camargo e ficaram por 10 Anos armazenadas, aguardando um momento que significasse sua exposição. Devido ao Terremoto, em respeito aos militares que perderam suas vidas, não fazia sentido expor este material logo após o retorno ao Brasil em Janeiro de 2010. No entanto, para lembrar os 10 anos do acontecido que se faz no dia 12/01, abrimos os arquivos para trazer à população, um pouco de como foi a nossa experiência nesta nobre missão.

Segue abaixo as imagens expostas e suas informações pertinentes ao tema:

1 - O Embarque


Militares de todo o Brasil, deixaram o convívio de suas famílias para comporem a missão. Uns do sul, outros do Norte, após um longo treinamento finalmente embarcamos para a tão esperada missão. O friozinho na barriga quase não tivemos, pois ao chegar no Haiti, podemos perceber várias faces de um mesmo país.


2 - O acolhimento


O Brasil sempre teve um bom relacionamento com a população, respeitando sua cultura e interagindo sempre que possível. Desta forma, em todos os lugares que passamos fomos bem recebidos. Ainda mais por se tratar da tropa de Engenharia, que era quem sempre estava à disposição para qualquer ação, sejam os desastres naturais ou nas obras de melhoria, estávamos ali para proporcionar.


3 - Entardecer no Paraíso


Tirando a capital que assim como todas tem seus problemas, o interior do país é rodeado de belezas assim como num filme de Hollywood.


4 - Praias Fantásticas


Exceto pelas praias do entorno da capital, que costumeiramente recebiam muito lixo, as demais eram extremamente lindas, de água límpida e extremamente claras. Em alguns lugares a visibilidade chegava entre 8 a 15 metros de profundidade.


5 - A Inversão


Na grande maioria das cidades, o centro e a região mais plana sempre são mais valorizadas. No Haiti é ao contrário, devido as intempéries e constantes chuvas e furacões, as planícies e regiões com baixo relevo, são povoadas de casebres e construções rudimentares, sujeitas a serem levadas pela primeira inundação ou vendaval.


6 - O lixo constante


Em todos os locais era comum ver lixo acumulado e bueiros entupidos, tudo isso devido ao desleixo da população e de seu governo. Durante a missão, uma das obras mais importantes foi a estrada de Truitier, o aterro sanitário. Pois os caminhões não conseguiam chegar até o local próprio e depositavam em qualquer lugar, exceto onde deveria ser. Depois desta obra concluída, começaram os primeiros processos de separação e beneficiamento de resíduos. Para não ver uma cena como esta em nossa cidade, comece você a separar o seu lixo, contribua com a coleta seletiva e faça a sua própria compostagem.


7 - Os contrastes


Na foto, é notória a imponência do palácio do governo, com seus jardins impecáveis e a sua costumeira guarda bem postada. Ao fundo podemos ver as diferenças com as casas mal acabadas, construídas sem qualquer supervisão, norma ou fiscalização. Não existe plano diretor ou algo do tipo, vira-se como pode e quando pode.


8 - O vício


O vício – Essien era um jovem de apenas 15 anos, durante a obra de Truitier, costumeiramente passava para fotografar o andamento da mesma, porém em uma destas inspeções, me deparei com esta cena, do menino ajoelhado no lixão, acendendo seu cigarro.

9 - Meu parque de diversões


Julien 7 anos, brincava no meio do aterro como se não houvesse amanhã, em meio ao cheiro ruim, montava brinquedos com objetos achados no lixo além de vasculhar as caçambadas de lixo em busca de algum resto de alimento.


10 - A Alegria estampada


No orfanato Blessing Hands que atendia em torno de 35 crianças, fomos fazer uma ação de reconhecimento, doação de alimentos e recreação. O que mais chamou a atenção foi que como uma simples folha de papel pode transformar suas expressões, pois fizemos barcos de papel e aviões que logo despertaram a imaginação destes pequenos. Enquanto nossos jovens estavam acostumados com smartphone e videogames, no Haiti as brincadeiras de roda e a imaginação imperava.


11 - O poder da Mulher


Era comum ver as mulheres levando a produção para a feira, gerenciando famílias e tomando conta da casa como um todo. Talvez por culpa da própria guerra civil que deixou tantas famílias sem seus pais, irmãos e avôs.


12 - Patrulhas por terra, céu e água


As patrulhas para combater o crime organizado eram constantes inclusive nas embarcações. O apoio da Engenharia era fornecer e operar os barcos. Foram apreendidos, desde drogas até armas.


13 - A Aproximação


Era comum a população ficar sempre em volta da tropa, fosse para interagir ou para pedir comida ou água. Em uma destas situações, logo que chegamos em nossa primeira folga, fomos a praia mais próxima, dois meninos se aproximaram e como de costume, não haviam comido desde a noite anterior.


14 - O alimento


Cada vez que avistam as viaturas da ONU no orfanato era uma festa. As crianças faziam fila, fazendo questão de auxiliar na descarga e garantir que tudo fosse aproveitado da melhor maneira. As vezes queriam carregar coisas que seus corpos não suportavam e assim nós auxiliávamos durante o caminho.


15 - Blessing Hands


Esta foi a última foto que fizemos nesta sede do orfanato. O local era alugado e sobrevivia apenas de doações. Desta forma assumimos o desafio de adquirir um terreno e construir do zero uma estrutura que comportasse as 33 crianças que ali estavam. Logo verá mais informações sobre este desfecho.


16 - De braços abertos


Em uma das vezes que fomos ao Blessing Hands, tive o privilégio de capturar esta foto. No mesmo momento que a fiz quase não acreditei no momento que tinha acabado de acontecer. Ser fotógrafo é capturar em um único instante, as emoções, os dramas e o momento para eternidade. Para mim, esta foto tem um significado imenso que as vezes fica até difícil comentar sem marejar os olhos. As dificuldades daquelas crianças e da população são incalculáveis, porém em cada gesto, acalentamos o sofrimento e despertamos um sentimento de esperança, pois são elas que despertam este sonho e é nas crianças que devemos investir para ter um mundo melhor.


17 - A pequena Notável


Em um dia mágico, fiz a foto anterior “De braços abertos” e logo na sequência vi a pequena que mal caminhava, subir um barranco alto e descer com o único item que podia agarrar, um pacote de macarrão. No meio o trajeto ela caiu e o Sargento Nélio a pegou no colo e a ajudou a completar o trajeto. Muitas vezes não fazemos as coisas por medo ou por não acreditar que é possível, porém esta pequena nos deu uma lição de grande valia. Apesar do seu tamanho e da sua pouca idade, seguiu em frente, mesmo com os tombos e com uma certa ajudinha conseguiu o que tanto queria. O limite é você que impõe, o impossível não existe! Acredite mais em você e principalmente tenha Fé!


18 - Suor por um legado


Nesta ocasião, independente do cargo ou graduação, lá todos se auxiliavam, desde o comandante até o soldado. Desta foto fica a lição da diferença do líder e do chefe. O líder está sempre com sua tropa e é o primeiro a avançar a linha de frente, sem medo, gerando uma reação pelo exemplo com seus comandados. Grande respeito tive pelos companheiros aos quais nos tornamos família.


19 - Depois da tempestade a bonança


Apesar de mostrar um lindo dia na imagem, na noite anterior, quase perdemos tudo. Choveu nas montanhas e a popular cabeça d’água quase interrompeu o trabalho de montagem da ponte em um lugar remoto. Esta estrada era a única que levava a um hospital e diversas pessoas tinham perdido a vida, tentando atravessar o riacho aparentemente raso que ao sinal da menor chuva, transformava-se em um rio perigoso e rápido.


20 – As caretas de felicidade


 As pequenas ficaram muito felizes em ter uma sobremesa. O pêssego em calda que encontramos em qualquer mercado aqui com preço populares, lá era muito caro. Sem falar no mel que adoçava os pães e biscoitos que eles comiam no café da manhã. O sorriso era garantido!


21 – Boucan Carré


Já diziam os mestres da guerra: “Treinamento árduo, combate fácil”, assim foi a montagem da ponte que instalamos em Boucan Carré, em apenas 3 dias os veículos passavam com segurança pelo local e a população estava em festa.


22 – A última peça


Quando pegamos a última peça, foi uma situação muito bacana, pois debaixo de chuva, com lama para todos os lados, o nível do rio subia, o cansaço já estava tomando conta, todo mundo queria carregar esta última plataforma e finalmente concluir o trabalho.


23 – Saúde


Os médicos e enfermeiros sempre auxiliavam as comunidades com o que era possível. A retribuição estava sempre estampada no sorriso das pessoas que entendiam que atrás daquela farda havia um pai de família que deixou o convívio de sua casa e seus familiares para estar a disposição para o que der e vier em outro país, com outra cultura e com quase 7 mil quilômetros de distância de sua casa.


24 – Higiene Bucal 


A concentração aplicada pelas crianças nas orientações que passávamos era exemplar, todos queriam aprender a como deixar sua higiene em dia para conservar seu sorriso para sempre.


25 – Trabalhos noturnos 


Enquanto no Brasil, todas as obras eram praticadas de dia, no Haiti era impossível, devido ao trânsito caótico, o intenso calor e a população em volta. Desta forma as obras rápidas eram todas realizadas à noite para gerar o menor impacto possível à população. No Brasil, agora 10 anos depois que vemos as empreiteiras trabalhando a noite nas rodovias em pequena parcela. A baixa adesão a este sistema deve-se as leis do trabalho, para nós militares, tanto faz trabalhar de dia ou de noite, dobrar serviço, não ir pra casa, trabalhar mais de 15 horas em um dia sem ganhar hora extra ou adicional noturno. O dever deve ser cumprido!


26 – Tudo pela missão cumprida


A jornada de trabalho só terminava quando a missão era concluída. Assim era comum sair da base ao entardecer e retornar somente pela manhã, depois de virar a noite toda, seja qual for a função, se faltava gente éramos escalados repentinamente, mesmo tendo trabalhado o dia todo em horário comercial, as vezes ocorria de emendar em uma missão noturna logo na sequência.


27 – As Estradas


Especialidade do batalhão de Lages na época, foram de grande valia para a missão como um todo, gerando infraestrutura para a população.


28 – O pior dia de nossas vidas!


Neste dia, estava retornando da sede da ONU junto com outro militar quando ao chegar na base sentimos o tremor de terra e até entender o que estava acontecendo, já havia terminado. Aqueles 46 segundos ficaram na eternidade marcados em nossas vidas, ali perdemos companheiros, amigos e muitos sonhos. Nesta ocasião, nossa equipe foi deslocada até o Forte Nacional para resgatar os militares brasileiros presos nos escombros da base histórica que havia sucumbido aos tremores. Para mim, teve um gosto um pouco mais amargo, pois depois de passar quase três horas quebrando lajes para chegar nos sobreviventes, tive o desprazer de perder a vida de um companheiro em minhas mãos, que apesar dos esforços de reanimação, não foram suficientes para fazer seu coração bater de novo. Doeu ainda mais ao ver que em sua camiseta estava bordado meu sobrenome, Camargo.


29 – Desencontros da vida 


Na manhã seguinte, nossa equipe foi deslocada para a sede da ONU. Lá trabalhamos incessantemente para chegar nos sobreviventes. Não dormimos, nem comemos, apenas tomamos água. Tinha recém saído deste local quando ocorreu o terremoto, nele haviam muitas pessoas de diversas nacionalidades, entre elas amigos que fizemos durante a missão, que tiraram férias conosco e que sempre que possível conversávamos. Retirar amigos dos escombros é uma situação que não desejo pra ninguém.


30 – Aflição contra o tempo


As primeiras horas após o ocorrido, eram mais propícias a encontrar sobreviventes, a medida que o tempo passa as chances diminuem consideravelmente. Com isto na cabeça, as equipes viraram dias e noites de trabalho incessante. Nossa equipe ficou 3 dias sem dormir trabalhando nos resgates. Ao total, foram 65 pessoas vivas que resgatamos e mais de 1000 corpos que retiramos nos escombros durante as primeiras 72 horas.


31 – O legado


Anteriormente falamos do orfanato Blessing Hands. Assumimos o compromisso de comprar um terreno e construir uma estrutura que tivesse conforto e dignidade às 33 crianças atendidas. E assim foi feito, apenas com doações dos próprios militares e do suor dos Lageanos, erguemos a estrutura inteira e mobiliamos tudo. Neste local o fato mais curioso é que apesar do terremoto ter ocorrido e todo o entorno ficar avariado, a nossa construção permaneceu em pé e sem avarias, quase como uma benção a estas crianças tão sofridas. A mobilização foi tamanha que conseguimos juntar dinheiro para pagar os estudos de todas as crianças só com as doações para o ano todo. Sim, a educação é toda particular e com apenas U$16,00 por mês, garantiríamos estudo para uma das crianças.


32 – Os Bravos


Nesta foto constam os 249 militares da missão, exceto eu que neste tempo, estava pendurado em um guindaste a 16 metros do chão para registrar esta imagem que tem valor inestimável para os que passaram por esta experiência, que molda caráter, que modifica pensamentos e solidifica princípios. Sinto muito orgulho de ter vivenciado tudo isso!